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Comunicação

Adentrando “A Mulher Na Lua” 1929

A Mulher na Lua é o último filme de Fritz Lang para a UFA, também seu último filme mudo, lançado em 1929. O enredo do filme pode ser divido em duas partes, sendo a primeira uma pré-história do lançamento do foguete, na qual o Professor Georg Manfeldt, junto ao engenheiro Wolf Helius e seu amigo Hans Windegger, planejam uma viagem experimental à Lua, com o propósito de provar a existência de ouro em sua superfície. Antagonizando essa trama há o personagem Turner, que representa as cinco personagens mais ricas do mundo que buscam controlar as reservas de ouro, supostamente, existentes em solo lunar. O grupo obtém os instrumentos e os estudos referentes à missão, formulados pelo Professor Manfeldt e Helius, através da espionagem e roubo, e obrigam a inserção de Turner na viagem espacial. Paralelamente, constrói-se uma história de amor entre Helius e Freide, a noiva de seu amigo Windegger. A segunda parte do filme passa-se na Lua, onde “os homens se introduzem em grutas subterrâneas em busca de tesouros escondidos”  e alguns até morrem em função disso, como o Professor, e, indiretamente, Turner pois após encontrar o ouro tenta voltar ao Foguete e é impedido pelos “companheiros” de viagem, levando um tiro. No momento dos tiros, parte dos tanques de oxigênio é destruído, o que possibilita apenas a volta de três dos quatro personagens que restam. Gustav, um garoto que se escondeu no foguete, e Freide são imunes, restando aos amigos decidir quem ficará na Lua. Windegger “opta” por permanecer, e após a decolagem se surpreende por perceber que Freide também permaneceu. Os dois se abraçam e o filme chega ao fim.

No período em que Lang realizou A Mulher na Lua, a Alemanha vivia um período histórico de estabilização econômica. Pois desde o término da Primeira Guerra, o Plano Dawes viabilizada o pagamento das inúmeras dividas que o país havia gerado durante a guerra. Este período de estabilidade durou até 1929, quando a Depressão acabou com a prosperidade do Plano Dawes. Segundo Kracauer, em seu livro “De Caligari a Hitler”, as indústrias cinematográficas conseguiam sobreviver no período de inflação e sofreram um revés quando o marco se estabilizou, o que fez com que Hollywood adentrasse o mercado cinematográfico alemão, o que impulsionou numa tendência de se “americanizar” seu cinema.

Além disso ” As massas, isto sim, estavam basicamente autoritárias quando entraram no período de estabilidade. Mas o regime republicano do período se baseava em princípios democráticos que repudiavam essas tendências de massa. Impedidos de achar uma saída, e ao mesmo tempo muito persistentes para desistir, os dispositivos autoritários caíram num estado de paralisia.” (KRACAUER; 162) De modo que os filmes produzidos nesse período evitavam evidenciar a realidade social, por se tratar de uma paralisia interna. Assim o cinema expressionista nesse momento surgia para remodelar o mundo, e não buscá-lo, de uma forma que os sentimentos interiores dos indivíduos eram associados a histórias fantásticas, retirando-os de seu contexto social. Como disse Frieda Grafe, em seu livro Fritz Lang : “Uma sociedade não tem a arte que merece, mas a que corresponde às leis mais gerais que regem o conjunto da vida social.”

Um filme curioso. Curioso por antecipar a viagem do homem à lua, e ser capaz de prever aspectos do desconhecido, como a ausência de gravidade no espaço, o formato dos foguetes, entre outros aspectos. Mas ainda mais curioso, por ser capaz de representar a atmosfera conturbada desse período histórico, através de uma ficção-científica rumo ao desconhecido que nos permite distrair em meio ao real.

Fritz Lang / Frieda Grafe, Enno Patalas, Hans Helmut Prinzler. – (Horizonte do Cinema ; 22). Livros Horizonte, 1976.

De Caligari a Hitler / Siegfried Kracauer – Uma história psicológica do Cinema Alemão. Rio de Janeiro : Jorge Zahar Editora, 1974.

 

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Sobre Juliano Castro

Estudante de Cine

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